quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Exposição Conservação Monumento Funerário Poeta Lobo da Costa - Cemitério da Santa Casa de Pelotas


Em diversas necrópoles do mundo, realizar o procedimento de higienização de um monumento funerário certamente não representa um ato inédito. Ainda mais se estas são providas de uma equipe de técnicos conservadores restauradores. Já nas mãos do povo, limpar os túmulos para o dia de finados era parte da rotina de nossos antepassados, afazer que ainda hoje permanece.

Visitar os entes queridos, lavar ou pintar a campa desgastada pela chuva e arranhada da areia que o vento carrega. Trocar as flores esmaecidas ou murchas. Esses gestos faziam (e ainda fazem) parte de um costume da lembrança, da recordação e do avivamento da memória.

Na cidade de Pelotas – RS, o antigo cemitério da Santa Casa já estava pra lá de esquecido quando para os alunos do Curso de Bacharelado em Conservação e Restauro da Universidade Federal de Pelotas, se mostrou um dos campos mais prósperos para o exercício do reconhecimento das pedras e de suas patologias. 

Durante a disciplina de Introdução à Conservação de Materiais Pétreos, o cemitério se tornou um verdadeiro laboratório, onde foi possível conhecer as fragilidades dos mármores e granitos ao longo dos anos. Nos monumentos funerários encontramos a possibilidade de realizar diagnósticos e de pôr em prática a aplicação de produtos químicos durante a limpeza do túmulo do poeta Lobo da Costa.

Foram semanas onde ingressamos na cidade dos mortos para levar até lá nossa experiência profissional e de vida enquanto futuros conservadores e restauradores. Dentre inúmeros mausoléus, catacumbas, esculturas, carneiras e ossários, lar dos restos mortais de tanta gente ilustre que fez a história de Pelotas, nosso escolhido foi o de Lobo da Costa. Um monumento de porte mediano, todo em mármore branco, adornado com inscrições em relevo.

A nobre homenagem popular que este jazigo representa se fez para nós uma honra, quando realizamos a atividade de sua conservação. Uma investida pioneira em cemitérios da Zona Sul do Estado. Foi a primeira vez que um jazigo do Cemitério de Pelotas sofreu um procedimento de higienização acompanhado de equipe técnica e instrumentalizada para tal. E esta atividade deverá se desdobrar ainda em intervenções de restauro da respectiva unidade tumular.

Para nossa surpresa, eis que o célebre Lobo da Costa é o homenageado da 41ª Feira do Livro de Pelotas, trazendo ao nosso trabalho a grata satisfação de ter cumprido além de nosso propósito como alunos e professores, uma grata homenagem ao falecido e seu monumento.

Inicialmente, realizamos um diagnóstico, ao preenchermos uma ficha que descreve as patologias encontradas no monumento. Capturamos diversas fotografias e medimos o jazigo. Passamos para a limpeza mecânica e a seguir realizamos testes de aplicação de produtos, acompanhada da limpeza química, seguida de impermeabilização. Estes procedimentos devem garantir uma melhor apresentação da obra e sua conservação.

A oportunidade de realizar este trabalho propiciou para o curso de Conservação e Restauro uma nova possibilidade de interação com acervos. Já habituados com a conservação de pinturas e de artefatos em papel, partimos agora rumo aos materiais pétreos e ainda mais, aos conjuntos de arte funerária. Esta atividade faz parte do projeto de pesquisa da Universidade Federal de Pelotas intitulado Marmorabilia – Inventário dos Cemitérios do Rio Grande do Sul. Nossos objetivos são inventariar, conhecer, divulgar e preservar a arte cemiterial nas cidades de Porto Alegre e Pelotas.

Esperamos dar continuidade aos nossos trabalhos e desenvolver ainda muitas outras estratégias de conservação do patrimônio cemiterial. A arte funerária constitui um segmento próspero, repleto de obras executadas pelos nossos marmoristas e escultores renomados, tais como Antônio Caringi e as marmorarias de Giusti, Barsantti, Sobrinho (Pelotas) e a Casa Aloys, e a Marmoraria Lonardi (Porto Alegre). 

Talvez o resultado deste trabalho possa sensibilizar nossa comunidade na tarefa de conhecer e zelar por este patrimônio que lhes pertence, para definitivamente elevá-lo a categoria de museu e incluí-lo na rota cultural turística do Município de Pelotas. O cemitério está a nossa espera, não para o descanso eterno - mas ao contrário - para muito trabalho e conhecimento que o atual momento requisita ao nos engajarmos em seu resgate.
Agradecemos sinceramente à Administração do Cemitério da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas por nos permitir realizar tão gratificante tarefa, ao nos receber com alegria, atenção e carinho.


Luiza Fabiana Neitzke de Carvalho
- Professora do Curso de Bacharelado em Conservação e Restauro da Universidade Federal de Pelotas e responsável pela Disciplina de Introdução à Conservação de Materiais Pétreos.
- Coordenadora do Projeto de Pesquisa Marmorabilia – Inventário dos Cemitérios do Rio Grande do Sul.
- Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
- Membro fundador da ABEC – Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais