quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Histórias que a morte conta

Livre de medo e preconceito, quem circula pelo cemitério de Curitiba tem a chance de aprender mais sobre a vida
Jornal Gazeta do Povo
Reportagem Anna Paula Franco
Fotos Marco André Lima


Clarissa conta a história da menina Luci: pesquisa com 54 famílias locais
Sem choro, nem vela. O cortejo que percorre as ruas do Cemitério São Francisco de Paula, no bairro do São Francisco, em Curitiba, é curioso e explorador. Observa atento as lápides que adornam os 5,7 mil túmulos, onde estão mais de 75 mil corpos, sepultados no local desde a inauguração do campo santo, em 1854. O passeio não tem nada de macabro. O tour é guiado pela pesquisadora Clarissa Grassi, autora do livro Um Olhar... A Arte do Silêncio.

Pesquisadora autodidata, Clarissa é vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais. A entidade, criada em 2004, reúne pesquisadores da produção artística, patrimônio cultural e memória presentes nos campos santos. O cemitério é um museu a céu aberto. Conta a nossa história de trás para frente, da morte para a vida, de acordo com as crenças, cultura, poder econômico de uma determinada sociedade. Essa leitura permite diversos aspectos que podem ser explorados: perspectiva de vida, imigração, moda, religião, arquitetura, arte..., diz.

Em Curitiba, o passeio pode ser uma aula de história, de economia e da sociedade paranaense a partir do fim do século 19. A suntuosidade de mausoléus, capelas e túmulos traduzem o poder econômico das famílias pioneiras da região. Muitos foram construídos com materiais nobres, como mármore Carrara, e exibem esculturas sacras especialmente encomendadas para artistas e artesãos para ornamentar as lápides dos mais abastados.

Clarissa faz paralelos interessantes entre a necrópole e a cidade dos vivos. É possível identificar aqui dentro o lugar dos mais ricos e a área dos mais pobres. Em determinado setor, mausoléus e grandes terrenos são ícones de influência e riqueza também depois da morte. No início, esses elementos eram usados para diferenciar o recinto do rico e do pobre, do nobre e do empregado, explica.

O tour passa ainda por túmulos dos milagreiros, como Maria Bueno, coberto por placas de ex-votos, em agradecimento às graças alcançadas. As lápides mais curiosas são traduzidas aos visitantes, conforme a pesquisa de Clarissa. Ela levantou a história de 54 famílias donas de túmulos que fotografou para o livro, lançado em 2006. Descobriu detalhes como de Luci, morta aos cinco anos de idade. A estátua de uma menina que leva flores na barra do vestido reproduz uma cena vivida pela criança duas semanas antes da sua morte. Ela havia colhido os cravos plantados pela mãe no jardim da casa, carregando-os na roupa, conforme a imagem que adorna seu túmulo. O pai da menina, comerciante que viajava muito, viu a figura de mármore durante uma das viagens à Alemanha e a trouxe pessoalmente no navio para colocar no túmulo da filha.

Serviço: Tour cemitério São Francisco de Paula, em Curitiba. Informações com Clarissa Grassi, pelo email clarissa.grassi@gmail.com

Ilustres defuntos
Cemitérios têm visitas guiadas
A curiosidade sobre cemitérios – acompanhada muitas vezes por medo e preconceito – começa antes mesmo da criação dos campos fúnebres. Antes de 1801, os cidadãos eram enterrados dentro de igrejas ou nos terrenos dos arredores. O poder financeiro determinava a localização do túmulo: quanto mais rico, mais perto do altar o falecido seria sepultado.

Com a proibição dos enterros ad sanctos (ao lado de santos ou relíquias), aos poucos, as autoridades seguiram a orientação dos médicos sanitaristas, e instalaram os cemitérios em locais altos (para o vento dissipar os odores) e distantes dos centros urbanos. Demorou muito para a população aceitar a mudança.
Hoje em dia, roteiros turísticos em cemitérios são muito comuns na Europa e na América Latina. Além de visitar o túmulo de personalidades ilustres, os turistas podem conhecer mais da história do país e da sua cultura, crença e sociedade.

No Brasil, há circuitos monitorados em São Paulo, no Cemitério da Consolação; e em Porto Alegre, no cemitério da Santa Casa de Misericórdia. Um projeto em andamento em Belo Horizonte também pretende levar grupos de turistas para dentro do Cemitério Senhor do Bonfim.

Serviço:
• Projeto Arte Tumular. Cemitério da Consolação, em São Paulo. Rua da Consolação, 1.660. Informações pelo fone (11) 3256-5919, 0800-109850 (agendamento de visitas monitoradas, realizadas das 9 às 14 horas). Entrada gratuita.
• Cemitério Santa Casa. Roteiros religioso, político, positivista, cívico celebrativo e de história social. Avenida Professor Oscar Pereira, 423, Porto Alegre De segunda a sexta-feira, das 9 às 18 horas. Informações pelo fone (51) 3223-2325.

Equador inaugura turismo em cemitério repleto de obras de arte

Monumentos, túmulos e mausoléus onde descansam políticos e artistas estão entre no roteiro turístico de cemitério em Guayaquil (por Agência EFE)



Monumentos, túmulos e mausoléus onde descansam políticos e artistas estão entre os roteiros turísticos que o Equador oferece pela primeira vez em um cemitério de quase 170 anos e com 700 mil mortos.

O cemitério fica em Guayaquil, a maior cidade do país, e ocupa cerca de 15 hectares, um terço dos quais foram declarados Patrimônio Cultural da Nação graças a suas mais de 200 peças tombadas.

Os estilos arquitetônicos greco-romano, neoclássico, barroco e mudéjar, entre outros, que decoram o cemitério foram criados por artistas europeus que chegaram a Guayaquil no final do século 19 e princípios do 20.

As mãos de artistas locais também adicionaram ao cemitério ruas, escadas, palmeiras e dezenas de belas esculturas de beijos e abraços de anjos, efígies femininas repousando sobre túmulos evocando paz, outras fundidas em um abraço de dor, resignação e contemplação.

A transcendência histórica, artística, cultural e popular da necrópole está entre as rotas turísticas temáticas, cujo passeio dura 90 minutos e será inaugurado nesta sexta-feira.

No percurso, os turistas poderão contemplar belas esculturas, grande parte delas em mármore, elaboradas em tal grau de perfeição que parecem pessoas cobertas de branco em uma galeria ao ar livre marcada pelo silêncio.

A rota para lembrar e saber mais sobre os presidentes do país se chama "Entre a grandeza e a pegada eterna", e o passeio "Após as sombras do último verso" é relacionado à arte, literatura e música.

"Memória e o voo de Los Angeles" convida o visitante a conhecer esculturas, enquanto um último passeio se concentra em personagens ilustres da cidade e do país.

Entre os moradores eternos do cemitério está Eloy Alfaro (1895-1924), líder da revolução liberal e duas vezes presidente do Equador.

O túmulo de Julio Jaramillo, conhecido como o "rouxinol da América", será passagem obrigatória nas rotas turísticas, pois, embora tenha morrido há 33 anos, sua voz continua fazendo sucesso.

No cemitério também jaz José Vicente Rocafuerte, o segundo presidente do país e o primeiro a ser equatoriano, pois seu antecessor, Juan José Flores, era venezuelano.

A obra literária de Medardo Angel Silva, Enrique Gil Gilbert, Joaquin Gallegos Lara, José de la Cuadra Vargas e Demetrio Aguilera Malta combinam passeios, cultura e história.

Para Érika Espin, coordenadora das rotas, o cemitério de Guayaquil é um dos mais belos da América Latina pelas esculturas, algumas de 200 anos, assim como por sua infraestrutura e simbologia.

"Há mausoléus imensos que parecem casas. Dentro há amplos espaços, quase igrejas", disse Érika, uma das responsáveis pela elaboração das visitas.

Para os que reclamem da tristeza e melancolia que evoca um cemitério, Espin responde: "É um tema de memória e lembrança" e a visita deve ser realizada "com respeito".

Ela menciona também o cemitério do Pere-Lachaise, o maior de Paris e um dos mais conhecidos no mundo, onde as pessoas visitam os túmulos do romancista Honoré de Balzac, do poeta e vocalista da banda The Doors, Jim Morrison, e do escritor e dramaturgo irlandês Oscar Wilde, entre outros.

A iniciativa na necrópole situada no coração de Guayaquil utiliza o turismo cultural e educacional como ferramenta para conservar o patrimônio, como há também em Medellín, Buenos Aires e Santiago do Chile.

Por isso, convencido de que o patrimônio ajuda a cultivar os valores e a identidade do povo, o Ministério de Patrimônio do Equador capacitou turismólogos e funcionários do cemitério para que ajudem a reforçar a cultura deste museu ao ar livre que emoldura a história do país. EFE

domingo, 13 de novembro de 2011

Abandono degrada o Cemitério de Nossa Senhora da Soledade em Belém (PA)

Matéria televisiva mostra estudo e restauro de carruagens fúnebres

A RBS Pelotas, afiliada da TV Globo no Rio Grande do Sul exibiu no último dia 8 de novembro, uma matéria que trata do estudo e projeto de restauro de carruagens fúnebres locais. A pesquisadora e associada da ABEC, Luiza Neitzke faz parte desse projeto, que procura resgatar uma parte importante da histórica local. Veja o vídeo abaixo:

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Cemitério Municipal de Curitiba recebe visitações guiadas durante Corrente Cultural



O Cemitério Municipal São Francisco de Paula, campo santo mais antigo da capital paranaense com 157 anos de existência, receberá três visitas guiadas durante a Corrente Cultural, evento promovido pela Fundação Cultural de Curitiba, que tem como objetivo valorizar e promover a diversidade cultural. As visitas acontecerão nos dias 9 e 12 de novembro e terão duração de duas horas.

À frente da iniciativa está a pesquisadora de cemitérios Clarissa Grassi, vice-presidente da ABEC e que estuda esse cemitério há 8 anos.  Autora do livro “Um olhar... A arte no silêncio”, lançado em 2006 e que retrata a arte tumular presente no Cemitério Municipal, Clarissa propôs a visitação ao campo santo como forma de difundir e sensibilizar a população local sobre a importância dos cemitérios e sua necessidade de preservação.

No roteiro de visitação serão contemplados túmulos de vários personagens da história curitibana e paranaense, assim como os exemplares de arquitetura e arte tumular mais relevantes. Personagens como a milagreira Maria Bueno, o herói nacional Barão do Serro Azul e a dupla caipira Nhô Belarmino e Nhá Gabriela serão alguns dos pontos visitados. Os passeios são gratuitos e os interessados devem enviar um email para clarissa.grassi@gmail.com para realizar a inscrição.

Sobre a Corrente Cultural
A Corrente Cultural nasceu do diálogo iniciado em 2008 por um grupo de agentes culturais de instituições públicas e privadas com o objetivo, entre outros, de valorizar e promover a Diversidade Cultural – uma das bases para uma Cultura de Paz, segundo a Organização das Nações Unidas (Resolução ONU 53/243 – 13/09/1999).

A Corrente chega em 2011 à sua 3ª edição. Neste ano a campanha tem início com a Virada Cultural no dia 5 de novembro, Dia Nacional da Cultura (Lei 5.579/1970) e se estende até o dia 12. Sua extensa programação é, portanto, um convite à comemoração do Dia Nacional da Cultura e a celebração da Cultura da Paz. São mais de 80 espaços participantes e centenas de atrações, entre espetáculos, exposições, debates, mostras, instalações, shows, desfiles, recitais, performances e outras atividades, em sua maioria, franqueadas ao público.

Além da participação dos espaços parceiros, atividades culturais são selecionadas por meio do Fundo Municipal da Cultura e recebem o patrocínio da Prefeitura Municipal de Curitiba, que permite a abertura das portas de espaços independentes gratuitamente.

Mais informações sobre a Corrente Cultural podem ser obtidas no site www.correntecultural.com.br

Saindo do senso comum, dupla de fotógrafos registra cemitérios de Jaboticabal



Quarenta e duas fotos compõe a mostra “A arte que dá vida à morte”, um trabalho dos fotógrafos Rafaela Gabriel e ZéMario, ambos de Jaboticabal, interior de São Paulo. A exposição retrata os cinco cemitérios da cidade e também o Crematório Prever em uma releitura de outra exposição (A Arte da Última Morada/2002), também de ZéMario.

Nessa releitura, as imagens buscam em um primeiro momento realçar a beleza da arte tumular, provocando no expectador questionamentos sobre a expressão e os gestos das estátuas de mármore fotografadas.
Em um segundo momento, as fotos foram feitas em cemitérios onde a artes tumular não estava presente, mas por suas peculiaridades, chamavam a atenção para as fotografias.

A mostra ficou exposta no Cemitério Municipal de Jaboticabal durante o Dia de Finados (2), seguindo posteriormente para o Espaço Prever de Jaboticabal onde deve permanecer até o dia 20.
Uma pinacoteca e duas faculdades disputam para ser o próximo destino da mostra “A arte que dá vida à morte”.

Quem são os fotógrafos:
Rafaela Gabriel é estudante de Publicidade e Propaganda, e uma apaixonada pela profissão, que vê hora como arte, hora como profissão. Fotografa desde 2008 e essa é sua primeira exposição pública. Atualmente trabalha na Daksa Comunicação Integrada.

ZéMario fotografa há pouco mais de 16 anos. Possui cerca de 40 exposições realizadas, um livro lançado, participação em outros dois livros e uma coleção de postais. Atualmente é repórter-fotográfico e correspondente do site debateonline.com.br

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Red Colombiana de Cementerios Patrimoniales realiza II Encontro Nacional de Cemitérios Patrimoniais

                                                                         
                                           Cemitério de Manga - Cartagenas de India
                                           Foto de Carlos Fernando Miranda Villamizar
                                           Auxiliar de Fotografia Marcelo Caceres
                                           Fonte: Flickr

Entre os dias 21 e 23 de novembro, a Red Colombiana de Cementerios Patrimoniales, sob a presidência de Catalina Velásquez Parra, realiza o II Encontro Nacional de Cemitérios Patrimoniais. Com a temática Valoración y Gestión de Espacios de Representación de la Muerte e Identificación y Salvaguardia de Manifestaciones Culturales Asociadas a los Rituales Mortuorios en Comunidades Afrodescendiente, o evento acontecerá na cidade de Cartagena, na Colômbia.
Estudiosos de países como Argentina,  Brasil, Colômbia, Cuba, México e Peru, apresentarão seus trabalhos divididos em seções temáticas. Confira abaixo a programação do evento:

Dia 20/11
Das 8h00 às 14h00 – Chegada dos participantes
Das 14h30 às 16h00 – Inscrições

Dia 21/11
Grupo de Trabalho – Instrumentos de Gestão para a recuperação de Cemitérios Patrimoniais
8h00 às 8h30 – Cerimônia de Abertura - Autoridades Distritais e Departamentais, representantes do Ministério da Cultura e convidados especiais
8h30 às 9h30 - Desenvolvimento territorial com identidade cultural  - CARMENZA SALDIAS BARRENECHE  - Colômbia
9h30 às 10h30 - Renovação urbana do Cemitério de San Pedro deve reconhecer o capital social e cultural do território  -  JUAN DIEGO LOPERA  - Colômbia
10h45 às 11h45 - Plano de Gerenciamento do Cemitério de Rosario  - MARINA BORGATELLO - Argentina
11h45 às 12h45 - Painel de perguntas
12h45 às 14h30 - Almoço livre
Grupo de Trabalho – Modelos de Intervenção em Cemitérios Patrimoniais
14h30 às 15h30 - Procesos de participação cidadã para a proteção e salvaguarda do Cemitério Presbítero – Mestre LUIS REPETTO MÁLAGA  - Perú
15h30 às 16h30 - Processo de restauração do Cemitério dos Ingleses -  ERNESTO R.X. DE CARVALHO - Brasil
16h30 às 16h45 - Café
16h45 às 18h00 – Visita guiada ao Cemitério de Manga - DORA CARMONA - Colombia

22/11
Grupo de Trabalho – Alternativas de Refuncionalização de Espaços de Representação da Morte
8h30 às 9h30 Turismo Cultural: desafios e oportunidades para os espaços de representação da morte  - CLARA INÉS SÁNCHEZ  - Colômbia
9h30 às 10h30 Espaços arquitetônicos e sacrifícios humanos y sacrificios humanos. Moche: revaloração e gestão turística de um contexto em estudo. Huaca de la Luna, Trujillo, Perú. RICARDO MORALES GAMARRA  - Perú
10h30 às 10h45 - Café
10h45 às 11h45 - De cemitério a Museu, uma nova alternativa para o turismo cultural: Cemitério de San Fernando - Distrito Federal  - CARLOS MERCADO LIMONES - México
11h45 às 12h45 - Painel de perguntas
12h45 às 14h30 - Almoço livre
Grupo de Trabalho – Ressignificação da morte a partir do patrimônio cultural
14h30 às 15h30 - Manifestações culturais associadas à morte em comunidades afrodescendentes  - LUZ ADRIANA MAYA  - Colômbia
15h30 às 16h30 – Rituais Mortuários afroatrateños no Alto e Meio Atrato - ANA GILMA AYALA SANTOS  - Colombia
14h30 às 14h45 - Café
14h45 às 15h45 – A cosmovisão palenquera da morte - JESÚS PÉREZ PALOMINO - Colômbia
15h45 às 16h45 – Painel de perguntas

23/11
Grupo de Trabalho - Tradições e festas representativas em torno da morte
8h30 às 9h30 - Alabaos -  FUNDACIÓN CULTURAL DE ANDAGOYA  - Colômbia
9h30 às 10h30 - Candomblé - Irmandade da Boa Morte - Brasil
10h30 às 10h45 - Café
10h45 às 11h45 – Museu das religiões de Guanabacoa - MARIA CRISTINA PEÑA - Cuba
11h45 às 12h45 - Painel de perguntas
12h45 às 14h30 - Almoço livre
Grupo de Trabalho – Patrimônio, Memória e Conflito
14h30 às 15h30 – O retorno de Ribiel e Catalina Luango - ENRIQUE SÁNCHEZ GUTIÉRREZ  Colômbia
15h30 às 16h30 - Caso de Estudo Santa Cecilia - PATRICK MORALES THOMAS - Colômbia
16h30 às 16h45 - Café
16h45 às 17h45 – Projeção do filme: Os abraços do Rio - NICOLÁS RINCÓN  - Colômbia – Bélgica
17h45 às 18h45 – Painel de Perguntas e Encerramento